Elias Cirne Lima
O NOME DE CIRNE
1.
Os
fócios eram uma tribo grega muito antiga que habitava na costa do Mediterrâneo,
hoje Turquia. Os habitantes da Focéia eram conhecidos e afamados por serem
peritos navegadores; faziam comércio com os povos mediterrâneos e chegaram até
Marselha (Massilia), onde fundaram uma cidade em 600 a. C.
2. Em 562 a. C. os fócios, depois de
multo explorar o mediterrâneo, fundaram a cidade de Alalia, na ilha de Kyrnos.
Kyrnos originariamente era o nome de um herói que teria sido filho de [Hércules
(cf. Heródoto I,165 ss.). Alguns gregos utilizaram, assim, o nome de Kyrnos
para designar aquilo que hoje chamamos de Córsega. Outra tribo grega, em vez de
Kyrnos, chamava a ilha de Korsai; desta palavra deriva o termo latino de
Corsica e hoje, em português contemporâneo, Córsega. Note-se que o herói é
chamado de “ho Kyrnos”, no masculino, a ilha, no entanto, “he Kyrnos”, no
feminino. Em Heródoto, a ilha é sempre chamada de “he Kyrnos”. – O poeta
Theognis, no século VI, em seus Poemas Elegíacos (Paris, 1975, bilíngüe grego e
francês), fala muitíssimas vezes e com grande paixão de um efebo que ele chama
de Kyrnos (no masculino); trata-se de um nome grego.
3. Os fócios, originariamente habitantes
da Ásia Menor, fundam em 562 a. C. uma
colônia em Kyrnos com o nome de Alalía (Aleria hoje em francês).
Trata-se, como se vê nos historiadores da época, do propósito de longo prazo e
do plano de manter um porto marítimo comercial entre a terra mãe e as cidades
no Mediterâneo. Alalia é a cidade, Kyrnos, a ilha. Até 546 a. C. os fócios
vivem em paz tanto em seu local de origem, a cidade de Focéia na Ásia Menor,
como também na ilha mediterrânea, que fora colonizada vinte anos antes, na
terra de Kyrnos. Mas, como reporta Heródoto (I, nr. 165ss.), a paz é
interrompida.
4. Dario, o Grande, em 546 a. C. manda
seus exércitos sob o comando de Harpagus sitiar e destruir as cidades gregas na
Ásia Menor. A primeira cidade a ser sitiada é Focéia. Heródoto conta (ibidem)
que os persas avançaram sobre a cidade e a cercaram; seus habitantes se
refugiaram dentro das muralhas. Os fócios, percebendo que uma rendição
significaria escravatura para sempre, pedem que lhes seja dado um dia e uma
noite para deliberarem sobre a rendição. Harpagus concede aos fócios o prazo
solicitado e retira seus exércitos. Os fócios, então, carregam seus longos
navios com mulheres, crianças e todos os seus bens e dirigem-se ao alto mar.
Harpagus, furioso, manda destruir a cidade e matar todos os sobreviventes.
5. Os fócios, expulsos de sua cidade,
procuram refúgio na ilha de Oinussae e tentam comprá-la. Mas os proprietários,
que eram habitantes de Chios, uma ilha bem maior, se negam a vender. Assim os
fócios são obrigados a continuar navegando em busca de uma terra onde pudessem
construir uma nova cidade. Atravessam, assim, um bom pedaço do Mediterrâneo,
até chegaram à ilha de Kyrnos, onde vinte anos antes, haviam lançado as bases
de uma colônia e onde alguns fócios desde então se haviam fixado. A colônia
grega de Alalia começa a existir em 562 a. C. e só é destruída em 540 a. C.,
quando os fócios, os habitantes de Kyrnos, são derrotados na batalha naval de
Alalia. Os fócios enfrentam, aí, os navios dos etruscos (tirrenos, da Itália) e
dos carcedônios (Cartago, norte da África), usando sessenta navios longos. São
derrotados.
6. De 562 a. C. até 540 a. C. os fócios
se mantêm na ilha de Kyrnos. Quando, depois da batalha de Alalia (540 a.C.),
são vencidos, fogem para Régio, na Itália, e ali fundam a cidade de Eléia. Um
grupo de fócios, provavelmente pequeno, ao invé4s de rumar para a Itália,
procuram abrigo na Ibéria. Esses fócios, originariamente da Ásia Menor e depois
da ilha de Kyrnos, quando chegam à Ibéria são chamados “aqueles que vem de
Kyrnos”. Ou seja, esses são os primeiros Kyrnos. Eles são gregos antigos, vieram
da Focéia e, depois, da ilha de Kyrnos. São chamados de Kyrnos. Daí vem o nome
de Kyrnos; daí vêm Cyrnos e Cirne.
